Ditando as regras do jogo
- 4 de jul. de 2021
- 8 min de leitura
Como o mercado de games segue crescendo no Brasil e no mundo, mesmo em meio a uma pandemia
A pandemia de coronavírus trouxe muitas dificuldades para o mundo dos negócios. Enquanto muitos setores encaram a crise desencadeada pelo novo vírus, enfrentando perda de receita e fechamentos em massa de empresas, existe um mercado que cresceu ainda mais nesse cenário: a indústria de games. Beneficiados pela necessidade de isolamento social imposta pelo avanço do vírus no mundo, os jogos se tornaram um dos passatempos mais procurados em 2020.
Segundo a pesquisa da Superdata, do Grupo Nielsen, o total gasto em jogos digitais em março deste ano superou US$ 10 bilhões no mundo, o recorde de valor mensal já registrado. A pesquisa mais recente divulgada pelo grupo mostrou ainda que os jogos digitais renderam US$ 82,8 bilhões nos primeiros oito meses de 2020, apresentando um crescimento de 13% em relação ao mesmo período do ano passado.

Os números mostram uma realidade mundial: hoje, a indústria de games fatura mais que a indústria do cinema e da música juntos, ficando atrás apenas da televisão. Dados da Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Eletrônicos, a Abragames, mostram como o mercado de games vem crescendo no Brasil há um tempo, em torno de 7,7% ao ano. Mas o aumento de receita em 2020 foi potencializado graças ao número maior de pessoas em casa. Com mais tempo livre na quarentena, os jogadores casuais começaram a passar mais tempo jogando, e os jogadores mais dedicados passaram a jogar por mais horas que o de costume.
Foi o que aconteceu com a estudante Júlia Costa, 21, que começou a investir mais do seu tempo em games digitais, que antes não faziam parte da sua rotina. “Tive interesse em começar a jogar online para me sentir mais próxima dos meus amigos. Eu saía muito, tinha as pessoas que eu gosto ao meu redor, e sempre gostamos de restaurantes que tinham jogos de tabuleiro. No contexto da pandemia, foi uma forma de continuar jogando com eles, me aproximar, conversar”, conta a jovem.
E não foram apenas os jogadores casuais que começaram a usar os jogos online como ferramenta de socialização: os jogadores mais assíduos também começaram a consumir mais jogos em rede para manter contato com os amigos. “O tipo de jogo que eu costumo jogar mudou, agora eu estou jogando jogos mais coletivos, online, para passar mais tempo com meus amigos. Antes eu preferia jogos single player, de história. Não sou fã de jogos online. Mas meu consumo aumentou, para poder ter contato social com outras pessoas”, relata o estudante de Ciência da Computação, Cláudio Barros, 22. O jovem, que tem o hábito de jogar desde criança, agora está investindo mais tempo do que nunca em games.

Bem vs Mal
Os benefícios e malefícios proporcionados pelos jogos eletrônicos já são estudados há algum tempo. A Doutora em Psicologia da Saúde, Caroline Salles, explica que é necessário lembrar que toda experiência tem impactos positivos e negativos. Ela ressalta que é importante estar alerta e aberto para perceber “quando temos prejuízos ou benefícios com as situações para aprendermos a lidar com elas”. Quando se trata de videogames não é diferente. “Os benefícios [dos games] podem estar relacionados a um aumento da capacidade do raciocínio abstrato, relacionado a formação de conceitos, por exemplo, além do aumento da capacidade de memorização, atenção e concentração. Além disso pode auxiliar no aumento da criatividade e velocidade do processamento de informações e tomada de decisões”, esclarece a Dr. Caroline.
Muitos pais se preocupam com os malefícios que o exagero no consumo dos jogos pode trazer. Mas como explica Dr. Caroline, os limites para consumo de games são necessários para a proteção da saúde mental, física e social dos jogadores. A psicóloga esclarece que distúrbios do sono são comuns em pessoas que passam muito tempo jogando. “Muitas vezes os usuários trocam o horário do sono noturno, dormindo menos horas e com uma qualidade pior no sono, o que pode, especialmente no caso de crianças e adolescentes, prejudicar o crescimento físico pela desregulação da secreção de hormônios, como a melatonina. Podem acontecer também prejuízos na retenção de memórias e aprendizados em geral”, afirma. O importante é manter o equilíbrio no consumo, como o de qualquer outro produto; os jogos não precisam ser vistos como vilões.
Hobby vs Profissão
O crescimento do mercado de jogos popularizou várias profissões e ampliou os ramos de atuação para além dos criadores de games. É cada vez mais comum encontrar jogadores profissionais de eSports, os esportes eletrônicos. A modalidade já é muito popular no mundo. Nela, os jogadores atuam como atletas profissionais de esportes tradicionais, em times que disputam campeonatos que são transmitidos pela internet e atualmente até em canais de TV especializados em esportes, como a ESPN e SporTV que cobrem os jogos desde 2017.
Um estudo da Newzoo mostrou que a audiência dos eSports no Brasil aumentou 20% em 2019, chegando em aproximadamente 21,2 milhões de espectadores. Vale ressaltar também que só o mercado dos eSports movimentou, globalmente, US$ 1,1 bilhão em 2019. Aos poucos, os jovens começam a admirar atletas que jogam fora dos campos, na frente de computadores ou até mesmo de celulares.
Há espaço também para os criadores de conteúdos, que atuam em diversas plataformas e formatos, ganhando a vida especificamente com os games. O Youtube é uma das plataformas de compartilhamento de vídeo fortemente ocupada por esse mercado. Victor Schiavon é dono do canal “Gemaplys”, que hoje possui mais de 1 milhão de inscritos na plataforma. O jovem é desenvolvedor de games, cursou design e produz vídeos variados falando sobre o processo de criação de jogos, comentando, fazendo resenhas e jogando, além de produzir músicas.

O “youtuber” do Rio Grande do Sul conta que começou a se interessar na criação de games em 2007, quando ainda era uma criança, mas hoje trabalha com muitas outras coisas. O gosto pela edição de vídeo foi o que fez Victor criar vários canais no Youtube, até criar o “Gemaplys” que hoje tem um grande alcance. “De alguma forma, em 2016 eu postei um vídeo feito em 15 minutos no Facebook e ele começou a ter visualizações, acredito que umas 500 pessoas viram. Como eu era acostumado com apenas 20 visualizações por vídeo, eu assumi que eu tinha uma boa chance ali e segui fazendo. O resto é história, mas nunca achei que ia virar o que virou. Me disseram na época que um dia eu teria 1 milhão de inscritos e eu respondi: nunca”, conta Victor.
O desenvolvedor explica que desde 2010 observa um aumento de oportunidades para jogos indies - independentes, que não são feitos por grandes estúdios — se destacarem. “O único problema que vejo nisso é que muitas pessoas entram no mercado para tentar conseguir um dinheiro rápido e fácil. Fazem jogos super simples porque viram outros do mesmo estilo funcionarem, isso gera um atraso triste na indústria indie e infla o mercado com jogos de péssima qualidade, muitas vezes ofuscando trabalhos que tiveram amor e carinho colocados neles”, relata Victor.
Para o criador de conteúdo, o brasileiro sempre foi interessado em jogos eletrônicos, mas o que tem mudado são as plataformas de consumo. “Brasileiro sempre foi interessado por jogos. Desde a minha infância não tinha uma criança que não era doida para ter um console em casa […] A gente sofre muito com imposto em eletrônicos aqui, tanto que não dá vontade de comprar um console. Agora as crianças estão crescendo presas no celular e acredito que esse é o mercado que mais vai crescer. O celular vai dominar o mercado de jogos um dia”, explica.
De fato, o segmento de jogos para celular tem crescido. Uma pesquisa da SensorTower mostrou que o Brasil foi o terceiro país do mundo que mais baixou jogos de celular no 2º trimestre de 2020. “O consumo de jogos no país cresceu de forma estrondosa, não somente jogos de computadores e consoles mas principalmente mobile. Isso fez com que mais pessoas tivessem acesso aos jogos, que são variados no que se refere ao gênero, por consequência a procura pela profissão [de desenvolvedor de jogos] aumentou nos últimos anos”, conta o professor Felipe F. Costa, que é coordenador do curso de Jogos Digitais do Centro Universitário Iesb.
O professor explica que nos últimos 3 anos o curso de Jogos Digitais teve um aumento de 100% na procura. As turmas que antes tinham 30 alunos, começaram a comportar 60 estudantes. “A quantidade de estúdios sendo criados nos últimos anos cresceu bastante, consequentemente a oferta por trabalhos também. Mas ainda assim a profissão se encontra com bastante carência em profissionais especializados”, explica Felipe. Para o professor, uma das razões é que a maioria dos profissionais formados optam por trabalhos fora do país. Além disso, muitos alunos não focam na criação de um portfólio para entrar no mercado. “Trabalhar com jogos digitais exige muito mais um trabalho prático que conhecimento adquirido. Muitos ainda saem da Universidade sem saber se de fato querem investir na profissão pois o retorno em trabalhar com jogos é a longo prazo, principalmente por exigir um portfólio de excelência”, relata.
Outra plataforma fortemente ocupada pelos games é a Twitch. Considerado o maior site de streaming do mundo, a página permite que criadores de conteúdo transmitam ao vivo o que mais gostam de fazer: seja jogar, conversar, desenhar ou até cozinhar. Há espaço para todo tipo de conteúdo, mas o forte da plataforma são os games. De acordo com uma análise da Lab News, hoje o Brasil é o segundo país que mais consome conteúdos da Twitch, que tem mais de 140 milhões de usuários no mundo.
Durante a pandemia, o consumo de streaming aumentou em todo o mundo. Dados divulgados pela StreamElements e Arsenal.gg mostraram que a audiência da Twitch cresceu para 5 bilhões de horas assistidas entre abril e junho, mais de 50% em relação ao primeiro trimestre de 2020 e mais de 60% nos mesmos três meses em 2019.
Grandes streamers, como são chamados os produtores de conteúdo ao vivo, dominam boa parte dos espectadores na plataforma. De acordo com o site Little Loans, o streamer brasileiro Alanzoka foi o melhor colocado na lista de streamers que mais faturaram em 2019, na 55ª posição, arrecadando cerca de US$ 318 mil em subscrições do site ano passado.
Nayara Souza, conhecida pelo seu público como “Nayu”, também é streamer na Twitch. Ela conta que ainda tem um trabalho fixo, mas que pretende focar na stream e viver disso. “Decidi que queria ser streamer em 2015. Mas não tinha computador ainda”, conta. “Depois, ganhei um notebook do meu pai. Mas não tinha um provedor de internet bom na minha região. Só em 2019 chegou uma internet decente na rua da minha casa”, relata Nayu.

A streamer conta que no começo, a mãe não apoiou o sonho. “Meu pai me apoia muito mas minha mãe é mais brava […]. Hoje em dia ela vê que eu tenho um retorno, ela até aparece nas minhas lives e dá oi pro pessoal. Mostrar pros pais que eles podem fazer parte disso também pode ajudar a mudar a mentalidade deles”, conta a jovem.
Uma pesquisa realizada pela Comscore mostrou que a audiência da Twitch no Brasil é 84% masculina. Em 2019, a Streamelements divulgou a lista dos dez streamers mais assistidos considerando todas as plataformas de streaming, como a Twitch, Mixer, YouTube e Facebook; todos os nomes da lista são homens majoritariamente brancos. Isso revela dificuldades que as criadoras de conteúdo enfrentam e a falta de diversidade entre os streamers mais conhecidos. “Com certeza tem muito machismo. Além disso, nós mulheres temos que enfrentar muito assédio e muitos comentários desnecessários. Muitas mulheres acabam desistindo porque não querem passar por isso. Também há falta de oportunidade. Hoje melhorou bastante, mas estamos conseguindo nossos espaço pouco a pouco”, explica Nayu.
Além disso, a representatividade ainda é um obstáculo. “Mulher tem que fazer 2 vezes mais que o homem e quando a gente fala de mulher negra, nós temos que fazer 2 vezes mais que as mulheres brancas fazem. Procure alguma streamer negra que seja contratada por alguma empresa de eSports grande… Eu não achei. Ainda luto para um dia ser contratada por uma empresa dessas”, conta a streamer. Apesar das dificuldades, o objetivo de Nayu é viver das lives em breve e construir uma comunidade unida, promovendo representatividade na plataforma.






























Comentários